12.3.10

"Por que cantamos”

De Manoel de Andrade para Mário Benedetti(*)


Se tantas balas perdidas cruzam nosso espaço

e já são tantos os caídos nesta guerra...

Se há uma possível emboscada em cada esquina

e temos que caminhar num chão minado...

“você perguntará por que cantamos”

Se a violência sitia os nossos actos

e a corrupção gargalha da justiça

Se respiramos esse ar abominável

impotentes diante do deboche...

“você perguntará por que cantamos”

Se o medo está tatuado em nossa agenda

e a perplexidade estampada em nosso olhar

se há um mantra entoado no silêncio

e as lágrimas repetem: até quando, até quando, até quando...

“você perguntará por que cantamos”

Cantamos porque uma lei maior sustenta a vida e

porque um olhar ampara os nossos passos

Cantamos porque há uma partícula de luz no túnel

da maldade

e porque nesse embate só o amor é invencível

Cantamos porque é imprescindível dar as mãos

e recompor, em cada dia, a

condição humana

Cantamos porque a paz é uma

bandeira solitária

a espera de um punho inumerável

Cantamos porque o pânico não retardará a primavera

e porque em cada amanhecer as sombras batem em retirada

Cantamos porque a luz se redesenha em cada aurora

e porque as estrelas e porque as rosas

Cantamos porque nos riachos e lá na fonte as águas cantam

e porque toda essa dor desaguará um dia.

Cantamos porque no trigal o grão amadurece

e porque a seiva cumprirá o seu destino

Cantamos porque os pássaros estão piando

e ninguém poderá silenciar seu canto.

Cantamos para saudar o Criador e a criatura

e porque alguém está parindo neste instante

Pelo encanto de cantar e pela esperança nós cantamos

e porque a utopia persiste a despeito da descrença

Cantamos porque nessa trincheira global, nessa ribalta,

nossa canção viverá para dizer por que cantamos.

Cantamos porque somos os trovadores desse impasse

e porque a poesia tem um pacto com a beleza.

E porque nesse verso ou nalgum lugar deste universo

o nosso sonho floresce deslumbrante.


Manoel de Andrade

Curitiba, Maio de 2003


(*)Escrevi estes versos motivado pelo belíssimo poema “POR QUE CANTAMOS” do poeta uruguaio MARIO BENEDETTI. Num tempo em que todos caminhamos sobre o “fio da navalha” me senti, como poeta, implicitamente convocado a também testemunhar por que cantamos.

4.3.10

…O homem não é o mundo em viva síntese consciente? A Natureza para o criar, serviu-se de todos os seus materiais. Nós somos um edifício construído por fora com toda a terra e iluminado, por dentro, com todas as estrelas. E, nele vive silencioso e prisioneiro, o fantasma do seu arquitecto...

Teixeira de Pascoaes in Os Poetas Lusíadas
Gil Vicente e Camões.

1919